O “Rei do Baião”, Luiz Gonzaga, ícone do forró nordestino, tem vários episódios de sua vida artística ligados a Jequié.
Com base em depoimentos de Eulália Machado da Nóbrega, Geraldo Teixeira e Alfredo Delsarto, o jornalista Ari Moura afirma que quem trouxe Gonzagão, pela primeira vez a Jequié foi seu pai, Manoel Moura, proprietário da “Casas dos Retalhos”, estabelecimento comercial instalado na época, à Rua Damião Vieira. A apresentação de Luiz Gonzaga aconteceu na década de 1950, no “Colarinho de Saback”, na Praça Rui Barbosa. Ao longo de três décadas, o Rei do Baião realizou diversos shows em Jequié e também fez várias apresentações com amigos, presenteando com uma sanfona e um músico Mário Alves Filho e comemorando um de seus aniversários, na sua data de nascimento 13 de dezembro, na Cidade Sol.
Luiz Gonzaga também se tornou amigo de casal de cineastas Robinson Roberto e Marilusa Barreto, que vivia em Jequié. Em uma das visitas à cidade, Robinson Roberto perguntou ao Gonzagão qual opinião dele sobre o fato de Caetano Veloso ter gravado a música de sua autoria “Asa Branca”. O “Rei do Baião” respondeu que o cantor santoamariense fez uma verdadeira oração, ao interpretar sua canção. Robinson Roberto disse que não tinha visto ainda o disco. Gonzagão então abriu a mala e pegou o LP de Caetano Veloso, dando de presente com autógrafo: “Ao amigo Robinson com um abraço caetanando”, Luiz Gonzaga.
12 de julho de 1971.
O carioca Klecius Caldas (1919-2002) e cecilense Armando Cavalcante (1914-1964) compuseram o ram “Sertão de Jequié”, para Luiz Gonzaga gravar. A grande estrela da música brasileira da época, Dalva de Oliveira, ficou encantada com a canção “Sertão de Jequié”. Imediatamente foi até o “Rei do Baião” e fez o pedido: “Amo essa música. Quero gravar. Você deixa?” Cavalcante generosamente solicitou por uma fascinante diva, não poderia resistir.
Lua (outro adequado apelido de Seu Luiz), abriu aquele sorriso enorme e disse: “_Pode gravar, minha linda!_”
Na Era do Rádio e com o sucesso que fazia, Dalva de Oliveira fez com que “Sertão de Jequié” tivesse projeção nacional, sendo tocada nas grandes emissoras do País.
Dalva de Oliveira guardava com muito afeto a hospitalidade do povo de Jequié, a maneira como foi recebida na noite de gala no Cine Theatro Jequié com plateia lotada de 1200 lugares, no começo de 1950. Tratada como uma verdadeira Rainha pelos fãs jequieenses e por ricos italianos que aqui viviam, Dalva de Oliveira quis retribuir todo aquele carinho, com a gravação da música “Sertão de Jequié”. Com ritmo lento e nostálgico, como seria Sertão de Jequié em ritmo de forró?
Em entrevista concedida ao jornalista Marcos Cirano em Recife, a 17 de outubro de 1988 (menos de 1 ano depois viria a falecer em 02 de agosto de 1989), Luiz Gonzaga afirmou que cantava em seus shows e que iria gravar ‘Sertão de Jequié’ em um novo disco.
Em 1952 quando esteve em Jequié, Luiz Gonzaga conheceu o anão Osvaldo Nunes Pereira, que trabalhava em um posto de gasolina na Praça Coronel João Borges. Naquela ocasião já pensou em incluí-lo no seu trio de forró, uma vez que o fato seria inusitado. Esteve também com o engraxate de sapatos Juraci Miranda de Ipiaú, que chamava atenção dos fregueses porque fazia malabarismo e percussão com as escovas da caixa de engraxar calçados.
No ano seguinte, 1953, Gonzagão demitiu o zabumbeiro “Catamilho” depois de uma apresentação em Itabuna, porque o músico bebia muito e de tanto embriagado chegou a cair do palco na cidade cacaueira. O triangueiro Zequinha, em solidariedade ao amigo demitido, resolveu sair também. Luiz Gonzaga não poderia ficar sem ritmistas porque tinha shows agendados, a começar por Santo Antônio de Jesus. Foi então que Lua lembrou do anão Osvaldo Nunes Pereira de Jequié e do engraxate de sapatos Juraci Miranda de Ipiaú, que apesar de não serem músicos profissionais, tinham habilidade para instrumentos musicais, ao improvisar ritmos em objetos alternativos nas suas atividades laborais. Mandou seu motorista buscá-los e depois foram ensaiar ao lado de uma cachoeira, onde completamente nus intercalavam banhos com ensaios, como mostrou o filme “Gonzaga – de Pai para Filho”. Estava formado o novo trio de forró com o anão Osvaldo Nunes Pereira de Jequié no triângulo, que foi denominado “Xaxado” e o engraxate de sapatos Juraci Miranda, de Ipiaú – zabumba, que passou a ser chamado de “Cacau” e Luiz Gonzagão, Lua, Gonzagão, de Exu, na sanfona e na voz, que estreou na noite de 23 de outubro de 1953 em Santo Antônio de Jesus.
Um ano depois, o anão Osvaldo ganhou outro nome artístico: “Salário Mínimo”. Numa turnê pelo norte do País, um recepcionista do hotel em que o trio ficou hospedado, disse que o tocador de triângulo era tão pequeno que mais parecia com o salário mínimo do Maranhão – (naquela época, o piso salarial era por estado). O apelido pegou. O anão jequieense Osvaldo, foi o mais carismático ritmista de Luiz Gonzaga. Deixou de trabalhar um tempo com o Rei do Baião porque bebia muito, mas voltou a atuar no trio de forró e a usar o nome Xaxado, tocando com Gonzagão no Forró Asa Branca, na Ilha do Governador no Rio de Janeiro.
O jequieense Noca do Acordeon era muito admirado por Luiz Gonzaga, que o considerava um dos melhores solistas do Brasil. Num dos seus shows na Praça Rui Barbosa em Jequié, (em cima de um caminhão), Gonzagão convidou Noca para se apresentar ao seu lado.
Outro jequieense que esteve diretamente ligado à trajetória artística do “Rei do Baião,” foi o poeta, compositor e produtor cultural Jorge Salomão, que dirigiu o show: “Luiz Gonzaga ao vivo volta pra curtir”, gravado no Teatro Tereza Rachel – Rio de Janeiro – em março de 1972. Dirigido por Jorge Salomão, com roteiro dele e do poeta José Carlos Capinan, o espetáculo foi um marco na carreira musical de Gonzagão. Pela primeira vez, o “Rei do Baião” se apresentava na Zona Sul carioca, para uma plateia em sua maioria formada por jovens “cabeludos”, intelectuais, estudantes – muitos deles de esquerda, fazendo oposição ao regime ditatorial da época – e que estavam ali para ver Luiz Gonzaga apresentar a sua música autêntica do sertão nordestino e ouvir os seus “causos”.
Mesmo com a projeção de sucesso em todo o País e no exterior, Luiz Gonzaga nunca perdeu a humildade e generosidade. Ao saber que o pai da bancária Rosário tinha vontade imensa de conhecê-lo, abriu espaço na sua agenda e foi à casa do senhor, na Rua Rio das Contas, no Bairro Joaquim Romão. O “fã” quase morre de emoção ao ver o “Rei do Baião” irem em sua casa para lhe fazer uma visita. Em outra ocasião, mesmo cansado de uma longa turnê, não deixou de ir na Clínica e Escola Maria Rosa – Cemari, na Avenida Rio Branco, e tocar para as crianças com necessidades especiais.
Todos que o conheceram dizem que Luiz Gonzaga tinha um imenso carinho por Jequié e os jequieenses precisam manter viva a memória deste que foi o maior sanfoneiro nordestino de todos os tempos e o maior divulgador do autêntico forró pé de serra.
Domingos Ailton é escritor, jornalista, mestre em Memória Social e Documento e atual secretário de Cultura e Turismo da Prefeitura de Jequié.
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